sexta-feira, julho 13, 2007

Para novos escritores...

O lançamento do primeiro volume da obra Ficção de Polpa nessa semana gélida de Porto Alegre deu publicidade a Fósforo, uma editora nova, criada e coordenada por jovens escritores de diferentes partes do país, mas com sede aqui, na nossa cidade.

A Fósforo está disponível para receber originais de pessoas que se atrevam com as palavras. É uma chance de sairmos do mundo virtual e irmos para os banheiros, redes e cabeceiras de gente de mau gosto. Acesse o site da Fósforo aqui.

Ah, defendi minha monografia hoje, há poucas horas. Tudo tranqüilo, mas preciso de um tempo de folga, reorganizar as idéias. Ou seja, uma semana no mínimo sem novas postagens. Acho que mereço.

terça-feira, julho 10, 2007

O Legado de Madonna

Na aula de espanhol de hoje, novamente causei polêmica. Tudo começou assim: a professora, dizendo que visava incentivar a treino da conversação, mas conscientes que estávamos de que se tratava unicamente de uma forma de improvisar a aula mal preparada, colocou questões de respostas difíceis a fim de que pudéssemos discuti-las. Nessa vez, a pergunta foi quem nos gostaria ser, se não fossemos nós mesmos. Praxe, mas deu certo. Todos falaram um pouco, inclusive eu. Comecei dizendo que escutei certa vez, de um professor de História, que a melhor época da humanidade foram os anos 60 (pílula anticoncepcional, revolução sexual, anarquismo na França, Woodstock, movimento hippie etc), e que, portanto, gostaria muito ter sido alguém naqueles tempos.

O problema foi quando tentei trazer o exemplo a períodos mais contemporâneos. Disse, na lata, que se pudesse ser alguém, seria (uma versão masculina, esclareci) a Madonna! Isso mesmo, a Madonna! Todos acharam engraçado, afirmando que ter o dinheiro dela realmente deveria ser algo muito agradável. Mas não permiti esse erro de interpretação da parte deles, e respondi que gostaria de ser a Madonna não pelo que ela tem, mas pelo que ela representa. O assunto foi ficando sério...

Antes de soltar minha teoria fatal e chocante - tudo isso com a modéstia que me caracteriza, é claro – ainda lhes recomendei calma, dizendo que costumava ofender algumas mulheres com o que pronunciaria a seguir. “Ofenda-nos”, respondeu a professora, nessas mesmas palavras. Daí, soltei: Madonna, para mim, é o estereotipo da mulher moderna, e todas, simplesmente todas, gostariam de sê-la!

Os risos voltaram. A primeira pergunta que fizeram, e para qual já tenho resposta pronta, porque é sempre a mesma, é se eu teria a Madonna como minha mulher. Ora, respondi, provavelmente não. As pessoas acham que é fácil ser marido da Madonna. Respondi que ainda sou demasiado primitivo para viver ao lado de uma mulher como ela, que meu machismo tosco não permitiria. Completei, todavia, que se tratava de um problema meu, e não dela.

Passaram a conversa adiante. Ninguém me deu bola. Somente no fim da aula um dos meus colegas veio falar comigo, dizendo que pensava o mesmo acerca do assunto. Acho que ele entendeu deveras a idéia. Àqueles que não tiveram a mesma habilidade mental que ele, explico-me.

A Madonna é tudo aquilo pelo qual os movimentos feministas lutam: independente, rica, inteligente, fala o que pensa e faz o que quer. Sexualmente, então, nem se fala: ela escolhe com quem quer trepar, trepa e ponto final, sem satisfações a ninguém! Mulher moderna de verdade! E dita moda, claro. Agora, resolveu que voltaríamos aos anos 70 e 80, e voltamos. Se a Madonna disse, está mais que dito, está feito, estejamos nós de acordo ou não.

A gente percebe o machismo das próprias mulheres quando conversamos com elas sobre esse tema. Pergunta, leitor, à tua mãe, irmã, namorada ou esposa, alguma amiga, o que ela acha da Madonna. Se ela responder que a acha uma depravada que não deu nenhuma contribuição à humanidade, essa mulher a quem perguntaste é uma machista, conservadora, eleitora dos Democratas e que merece ficar na cozinha pilotando fogão a vida inteira.

Ora, a Madonna tinha que ser a maior heroína das mulheres do século XXI, ou existe símbolo maior dos avanços feministas no mundo do que ela? A Madonna é uma das mulheres que mais influência exerce sobre os hábitos atuais que temos acerca dos gêneros e da sexualidade. A mulher moderna tenta fazer aquilo que a Madonna já fazia nos anos 80, enquanto desfilava em seu vestido de noiva em Like a Virgin sedutoramente; Erotica é chocante até hoje aos mais, digamos tímidos; Material Girl é a afirmação da mulher perante o capitalismo; e quem nunca teve um frio na espinha vendo o clipe de Like a Prayer, quando nossa musa beija o pé da imagem sacra?

Não sei por que há gente que acha isso feio. A Madonna é uma revolucionária, que alterou hábitos do mundo inteiro com sua postura e que permitiu às mulheres a quebra de muitos tabus. Até hoje ela choca: em sua última turnê, iniciada no ano passado e ainda não encerrada, seu show na Alemanha, um país bastante moderno intelectualmente, foi censurado. Imagino o que teria ocorrido se ela realmente tivesse vindo ao Brasil, onde não sei quem é mais conservador, se a esquerda ou a direita.

Enfim, é a minha teoria. Nas aulas de espanhol, onde costumo expô-la, tende a gerar um certo mal-estar entre as mulheres. São todas machistas! Feminista sou eu, que quero que a mulher moderna - independente, rica e inteligente – saia dando por aí.

Like a virgin.

sexta-feira, julho 06, 2007

A Burrice das Cotas

Uma amiga minha, a favor das cotas na UFRGS, argumentou da seguinte maneira: “A gente institui as cotas e vê o que acontece. Se der errado, a gente volta atrás.”

Às vezes tenho impressão que essas pessoas estão brincando com o país. O Brasil, agora, virou laboratório: a gente testa, faz experiências, brinca com a vida das pessoas.

As cotas mal foram implantadas e suas incongruências já estão estampadas na cara. A partir do ano que vem, 30% das vagas de todos os cursos estarão destinadas a negros, índios e estudantes de escolas públicas. Mais da metade disso, usando como critério simplesmente a cor da pele dos candidatos, ironicamente para combater o racismo.

As cotas são tão burras, mas tão burras, que ninguém sabe ao certo como serão aplicadas a partir do ano que vem, e, nas regras atuais, inúmeros problemas já foram detectados. Por exemplo, a partir de 2009, índio terá acesso a 10 vagas na universidade sem vestibular. Isso mesmo: sem vestibular! Índio entrará direto. Os outros, não. De novo, ironicamente para combater o racismo...

Se não bastasse, “descobriram” que nem todas as escolas públicas são ruins, e que o Colégio Militar, por exemplo, aprova praticamente todos seus alunos. Logo também vão descobrir que nem todo o negro é burro. Então, acharam uma solução: negros e estudantes de escolas públicas que fizerem a média para serem aprovados sairão das cotas e as liberarão a outros. Ou seja, na prática, instituíram mais um critério para ingressar nas cotas, além de ser negro, índio ou estudante de escola pública: não ter passado no vestibular. Quem passa, está fora das cotas. 30% das vagas de todos os cursos da UFRGS estão destinadas àqueles que não passarem no vestibular!

Da semana passada pra cá, algumas coisas começaram a ficar mais claras. Por exemplo, se entende melhor as cotas quando se sabe que o Governo Lula está condicionando o repasse de verbas à sua aprovação pelas universidades. As que não aprovam as cotas, não recebem grana. Por isso nossos pró-reitores estavam com tanta pressa em aprovar o projeto semana passada. O Governo Lula, covarde, não querendo se expor diante da opinião pública com essa proposta ridícula, repassou a responsabilidade às universidades. Em troca da aprovação, manda grana. Ou seja, as cotas estão sendo compradas com o dinheiro público. Ninguém está pensando nos negros, índios ou pobres; estão pensando em dinheiro, brincando irresponsavelmente com as instituições do país.

E em política, é claro. Ou melhor, em politicagem. Ano que vem teremos eleições municipais. Só quero ver quantos candidatos a vereador surgirão se dizendo que foram a favor das cotas, da inclusão do negro, da diversidade e blá blá blá. Todos do PSoL, do PSTU, do PT, de todos esses partidos que vivem da infiltração que têm na burocracia estatal e que, por isso, a defendem tanto com seus sindicatos e movimentos estudantis.

Mas eu tenho uma proposta: reservar uma cota exclusiva para negros, outra para índios e outra para brancos. Assim: se a população do RS é composta de 15% de negros, por exemplo, 15% das vagas na universidade seriam destinadas exclusivamente aos negros. Os negros fariam o vestibular normalmente e disputariam, entre si, esses 15% de vagas. O mesmo aconteceria com os índios e com os brancos: índio contra índio pelas suas cotas, e brancos contra brancos pelas suas. No final, estaria garantida a entrada de todas as raças na universidade, ponderada pelas suas representatividades na população. Todas as raças teriam suas cotas, e não só uma ou outra. Que tal?

Para encerrar, outra sugestão, também de um dos tantos amigos que tenho: “Tinha que ter cota pra mulher gostosa na Economia.”

quinta-feira, julho 05, 2007

Hey Ho, let's go (de novo)!

Em breve no Brasil, Ramones, it’s alive 1974 - 1996!

Um novo DVD duplo, contendo mais de quatro horas de apresentações ao vivo, desde seus primeiros shows no clássico CBGBs, em Nova York, até grandes palcos na Inglaterra, Alemanha, Suécia, Finlândia, Itália, Espanha e, é claro, do continente mais punk do mundo, Argentina.

Acesse o site oficial dos Ramones aqui.

sexta-feira, junho 29, 2007

Dito e feito


"CONSUN aprova cotas na UFRGS
29/6/2007
Depois de seis horas de intensas discussões, o Conselho Universitário (CONSUN) aprovou a adoção do Programa de Ações Afirmativas da UFRGS, prevendo a reserva de 30% das vagas em todos os cursos de graduação para alunos autodeclarados negros e egressos de escolas públicas. Na coletiva de imprensa, realizada ao final da reunião, o reitor José Carlos Hennemann disse que a decisão fortaleceu o CONSUN e a comunidade universitária e que o próximo vestibular da UFRGS deverá ser mais estimulante para os estudantes afro-descendentes e egressos de escolas públicas. O programa será aplicado no Vestibular 2008."

Não às Cotas

Estou cada vez mais estupefato acompanhando o debate acerca das cotas raciais na UFRGS, universidade em que estou me formando. É impressionante como em pleno século XXI, com todos os avanços verificados nas ciências sociais nos últimos três séculos, esse tipo de debate ainda tenha alguma relevância na sociedade.

Um único argumento basta para me fazer ser contra a qualquer tipo de cotas, seja racial ou social: cotas não funcionaram em nenhuma parte do mundo, em nenhuma época.

O que o mecanismo de cotas racial fará, na prática, é transformar a cor da pele de cada indivíduo em critério para seu ingresso na universidade. Isso é consenso tanto entre aqueles que são contra quanto entre aqueles que são a favor. A diferença é que os últimos acham isso bom, que se estará revertendo um processo histórico em que os negros e índios sempre ficaram desamparados. Agora, então, segundo a proposta que está sendo discutida, negros e índios dividirão 40% das vagas da universidade somente por serem negros e índios, sendo as outras 60% distribuídas pelo critério do vestibular, como é hoje com todas. Ou seja, negros e índios terão 40% das vagas da universidade reservadas para si simplesmente, como disse, por serem negros e índios. É a institucionalização do racismo no Brasil.

Se não bastasse a questão ética, há uma prática. Tu, leitor, te consideras de que raça? Não, não fica envergonhado, pois tampouco sei a minha. No nosso país, como sabemos desde Gilberto Freire, só há mulatos, uns mais brancos, outros mais pretos. Nem a genética salva, pois, de acordo com ela, existem variedades de seres humanos, não raças. Na nossa peculiar formação antropológica, então, conseqüência da suruba que foi nossa formação enquanto povo, como definir quem é negro e quem não é? A primeira solução apresentada foi a formação de um conselho de professores da universidade que definiria isso. Seria assim: os candidatos a uma vaga na UFRGS chegariam diante de uma mesa de professores e estes diriam se eles são negros ou não e, assim, se teriam direito às cotas ou não. Coisa semelhante se viu somente na Alemanha nazista. A nova proposta sugere que cada candidato defina sua própria raça e, portanto, se quer ou não participar do esquema das cotas, o que levará ao que ocorreu no Rio de Janeiro com aquelas meninas loiras e de olhos azuis que ingressaram na universidade via cotas. Elas simplesmente se achavam negras. Quem vai dizer que não? Um conselho de professores? É a típica regra burra que surge para ser burlada.

Alguns apontam à experiência dos EUA como exemplo bem sucedido de cotas raciais. Repito: cotas não funcionaram em nenhuma parte do mundo, em nenhuma época. É importante dizer que nos EUA, ao contrário daqui, as raças sempre foram bem definidas entre negros e brancos. Elas não se misturaram, e isso torna a aplicação de cotas mais fácil. Mas mesmo lá, as cotas serviram para acirrar o conflito racial e fazer crescer o problema que visava solucionar. Se não bastasse isso, ontem a suprema corte norte-americana aboliu o sistema de cotas das escolas por considerá-la anticonstitucional. O que provocou isso foi o fato de três famílias brancas terem entrado na justiça por não terem conseguido vagas para seus filhos em escolas porque elas estavam reservadas para negros. A alegação da suprema corte foi a de que um país livre não pode ver a cor de seus cidadãos e utilizar isso como critério para se ingressar ou não numa escola. Enquanto lá as coisas andam numa direção, aqui andam noutra.

Ora, é evidente que negros compõem a grande massa da população pobre brasileira. Não nego que eles estiveram à margem do progresso do nosso país, e as estatísticas mostram isso claramente. Se considerada somente a nossa população branca, por exemplo, o Brasil seria o 40° país de melhor qualidade de vida do planeta; os níveis de desemprego são maiores entre a população negra; e os negros são as maiores vítimas da violência. Mas há um outro aspecto a ser considerado: existe uma ferramenta chamada matriz de mobilidade social, calculada também pela ONU, que indica o nível de mobilidade social existente num país ou região, ou seja, a freqüência com que integrantes da parcela mais rica da população se movem à mais pobre e vice-versa. De acordo com ela, o Brasil é um dos países de menor mobilidade social do mundo, distante enormemente de outros considerados desenvolvidos. Nesse contexto, é claro que negros, que inicialmente formaram a grande parte da população pobre brasileira, continuará formando a parcela mais pobre hoje em dia. O que explica isso é o nosso baixo nível de mobilidade social, e não a raça. O problema é mais profundo, do arcadismo do nosso capitalismo precário e tosco.

Logo, estamos combatendo um problema inexistente e com métodos equivocados, que somente vão ampliar o conflito racial no Brasil. Prova disso são as pichações racistas encontradas em torno da UFRGS nessa semana, de caráter praticamente inédito na história recente do nosso Estado.

Por fim, devermos ter claro na nossa mente qual é a função de uma universidade: desenvolver conhecimento. Estamos substituindo um critério claro e prático de ingresso nela, baseado em méritos num exame que é igual para todos, por outro racial. O trabalho e o mérito devem ser os mecanismos de ascensão social, onde a universidade é um caminho entre tantos, como ocorre em outros países. Colocar pessoas aos montes para dentro das universidades, independente de suas raças, não vai resolver nossos problemas econômicos. As cotas são mais um exemplo da covardia que nós, brasileiros, temos diante dos problemas do nosso país. Ao invés de enfrentarmos de frente as questões da educação e da imobilidade social, ficamos procurando “jeitinhos” de as resolver de maneira fácil, postergando para o futuro suas soluções reais e perpetuando nosso subdesenvolvimento.

Lamento muito que as cotas sejam aprovadas na UFRGS. Sim, pois se trata de um jogo de cartas marcadas: as cotas serão inevitavelmente aprovadas. As reuniões que estão sendo feitas são um faz-de-conta. Somente algum órgão extra-universidade, como algum tribunal, pode impedir sua implementação, pois todos os segmentos da universidade estão tomados pelo corporativismo pró-cotas oriundo de alguns segmentos influentes e dos movimentos estudantis.

Restam protestos isolados como esse.

quinta-feira, junho 28, 2007

Mais um blog

Recém iniciei um blog paralelo com meu colega de faculdade e amigo Guilherme Stein: o Punkonomics, a fim de discutir os benefícios do anarquismo e da economia de mercado. Acesse-o por aqui.

terça-feira, junho 26, 2007

sexta-feira, junho 22, 2007

O rápido gesto de uma guria bonita

O inverno daquele ano teve uma forma bem diferente da que com a qual o desse está começando. Não sei bem quando aquilo ocorreu, se há uma, duas, ou cinco temporadas. O tempo, no entanto, é suficientemente curto para que eu me lembre exatamente, com detalhes, do que aconteceu. Lembro, por exemplo, que o frio que abatia Porto Alegre naquele fim de junho era intensificado por uma chuvinha fina que umedecia toda a cidade. Aquelas bem fininhas mesmo, que nos convence da desnecessidade de se levar um guarda-chuva até percebermos estar completamente molhados.

Pois lá estava eu, então, na estação rodoviária da cidade, molhado, e com uma mochila nas costas. Faltava pouco para o ônibus em que eu embarcaria sair, mas ele ainda não tinha estacionado à minha frente. Eu comia um pacote de biscoitos e guardava um outro para a viagem. Tomava uma coca-cola também. E esperava, nada mais.

Sentada num banco, com os cotovelos sobre os joelhos, uma guria olhava para o lado oposto ao que eu me encontrava. Olhava, às vezes me parecendo bastante atenta ao que via, noutras me parecendo distraída, embora eu ainda não tivesse visto seu rosto. De repente, ela se virou, e pude, enfim, olhar sua face: era uma moça muito bonita, de seus dezesseis, dezessete anos. Um rosto de formas suaves, olhos claros, cabelos loiros e longos escorridos para suas costas, exceto por uma mecha que lhe caía até a boca. Olhou para o meu lado sem se focar, e se voltou novamente para o outro.

Seu movimento talvez não tenha sido tão veloz quanto me pareceu, mas, na minha cabeça, foi muito, muito rápido. Reparei tudo que descrevi em questão de segundos, de décimos de segundo. Seu movimento só não foi mais rápido que a minha capacidade de guardar cada detalhe de sua fisionomia. Depois daquele breve momento, só pude continuar a reparar unicamente nos seus cabelos, no seu casaco verde e fofo, e nas suas mãos delicadas que se apoiavam uma na outra sobre suas pernas.

Então, o ônibus chegou. Voltei à realidade, e fui um dos primeiros a embarcar. Embora estivesse ficado muito impressionado com a beleza da moça, não me senti impedido por nada a subir ao ônibus e querer chegar rápido ao meu destino. Subi e me dirigi ao fundo do coletivo, a um assento próximo ao corredor. Esperei, pensando noutras coisas, pelos demais passageiros, até ver, entre eles, aquela guria bonita. Parecia sozinha e despreocupada com qualquer coisa, com o mesmo olhar sem foco definido. Sua única ação mais brusca foi a de colocar a sacola que trazia sobre o banco, muito à frente do meu. Ela sentou, e sumiu entre as poltronas.

A viagem que fiz não foi curta em percurso nem em tempo. E durante toda ela, aquela moça bonita não levantou nenhuma vez de seu banco, tampouco deixou mostrar seus cabelos aos passageiros de trás, nenhum movimento saliente, enfim. Parecia que não havia ninguém naquele banco. Mas, assim como o olhar daquela menina na minha direção, a viagem também pareceu ter sido muito rápida. E quando chegamos, tentei ser um dos primeiros a sair, a fim de passar pelo seu banco antes que ela desembarcasse. Porém, quando cruzei por ele, a guria não estava mais lá. Não sei o que aconteceu, se ela desceu antes ou durante a viagem, em alguma parada pela estrada. Ela simplesmente não estava mais lá, como se o banco estivesse ficado, de fato, vazio durante a viagem inteira.

Ao descer, não fiquei nada mais que curioso sobre como, mesmo tendo ficado atento a ela durante todos os instantes, havia perdido o momento de sua saída do ônibus. Teria sido alguma distração mínima minha, algo assim. Segui andando para meu destino, sem pensar mais nisso. Achei que aquele fato jamais me preocuparia. Ao escrever essa crônica, todavia, é que percebo o quanto estive enganado esse tempo todo, e o quanto aquele simples, rápido e despropositado movimento, daquela menina tão bonita, naquele dia tão cinza, ainda segue interferindo nos meus mais cotidianos dos pensamentos.

segunda-feira, junho 18, 2007

Por que acreditamos?

Nos últimos dias, todos nós, gremistas, volantes de contenção, viemos recebendo mensagens por e-mail, pelo MSN, correntes, simpatias, argumentos estatísticos e históricos, tudo que possa indicar que o Grêmio ainda pode ser campeão da Libertadores. Perguntado sobre isso no último sábado, entre goles de cerveja e vinho, respondi que “sou suficientemente consciente para entender o tamanho da dificuldade, mas enormemente mais político para jamais admitir a possibilidade da derrota”. Foi uma daquelas frases simples e geniais que de maneira nenhuma representam algum mérito meu, mas sim da visão apurada que o álcool nos traz.

Mas fato é que, no fundo, bem lá no fundo, todo gremista está pensando assim. Trata-se da idéia de que nossa descrença aumentará ainda mais os obstáculos. Porque todo gremista é, em algum grau, um fundamentalista, e é por isso que ninguém gosta de gremista – não há como conversar civilizadamente com um fundamentalista, com um religioso, que não consegue ver o futebol como um jogo de lógica. E, acreditemos, é essa fé, sim, que move o Grêmio. Não sabemos na verdade se é ela que realmente faz o Grêmio vencer, se existe alguma explicação científica para as façanhas que o Grêmio consegue fazer, não sabemos de nada. Mas, por alguma razão que, sinceramente, não interessa, essa fé faz do Grêmio mais forte, faz com que o Grêmio tente coisas aparentemente impossíveis e, incrivelmente, as consiga.

Ora, sabemos da dificuldade de vencer a Libertadores esse ano, mas nossa fé nos faz tão, mas tão ingênuos, que é capaz de a vencermos.

O Grêmio é o primeiro time pós-moderno do futebol. O Grêmio está conseguindo fazer o que a humanidade de hoje, filha da razão, do cientificismo, não consegue. O Grêmio não acredita na lógica, na racionalidade, em tudo que a modernidade nos trouxe e construiu nesse mundo careta e covarde de hoje. O Grêmio quebra a ordem, ignora os manuais, destrói a razão, a linearidade. O Grêmio não acredita em método, mas em espírito, em metafísica. O Grêmio move o mundo pela força de sua fé inaudita, na crença de que é capaz, ao se ver como gigante, e não como um simples moinho de vento. É isso que faz do Grêmio forte: ele simplesmente acredita que é forte. Nós acreditamos no Grêmio, nós somos ingênuos, estúpidos, ignorantes, fervorosos, e, por isso, tudo, eu disse tudo, nos parece possível, tanto a ponto de conseguirmos.

Temos certeza de que o Grêmio vai ser campeão na quarta-feira. É obvio! Nós, gremistas, sempre acreditamos! Não importa o por quê.

sexta-feira, junho 15, 2007

O tamanho da riqueza do Brasil II

Em seu blog, Davi Zell, que trabalhou junto com o professor Monastério na construção do mapa da postagem anterior, publicou um novo, com dados mais atualizados - embora eu não saiba ao certo o que foi atualizado. Lá, como fez meu amigo Ricardo Martini aqui, foi sugerido que os mapas expressariam melhor a realidade se feitos com os PIBs per capita. De qualquer forma, o novo mapa segue abaixo:Por curiosidade, também dos blogs de Monastério e Zell, a mesma idéia aplicada aos EUA (o Brasil se equivale ao estado de Nova York):

Acesse o blog de Davi Zell por aqui.

quinta-feira, junho 14, 2007

O tamanho da riqueza do Brasil

Descobri recentemente que o professor de Economia da UFPel Leonardo Monastério, com quem tive o prazer de trabalhar aqui na UFRGS, tem um blog para tratar de Economia Regional, Cliometria e Desenvolvimento Econômico. Muitas coisas interessantes se encontram lá. Uma delas é o mapa abaixo, que compara os PIBs dos estados brasileiros a equivalentes de países:
Acesse o blog do professor Monastério por aqui.

sexta-feira, junho 01, 2007

A Cidade

Poucas coisas nos fazem observar a cidade. Às vezes, tenho a impressão de que a cidade é invisível aos olhos de alguns ou, quem sabe, aos olhos de muitos. Percebo isso quando alguém me pergunta onde há, sei lá, uma padaria, e não sei responder que há uma ao lado da minha casa; ou quando preciso de uma farmácia e me surpreendo ao encontrar uma na rua pela qual sempre passo, sem nunca a ter visto antes. A cidade é mesmo invisível.

Nunca mais caminhei pela cidade. Passo por algumas de suas ruas, geralmente as mesmas, sempre a pé, mas caminhar pela cidade, isso faz tempo que não faço. Não sei o que há na rua atrás da que moro, ou mesmo se há uma rua lá. Não sei se há ruelas, se é um bairro bonito ou feio. Vivo na cidade, estou enjoado dela, não a tolero mais, mas não a conheço, não a vejo.

Não sei descrever as pessoas que vivem na cidade. Não sei como são, o que fazem, do que gostam. Não sei o que pensam, nem sequer se falam a mesma língua que eu. Nunca conversei com elas. Elas simplesmente... passam. Não conheço suas cores, seus cabelos, seus rostos. Não sei como são as mulheres da cidade, seus jeitos, suas delicadezas, formas e belezas. Tampouco tomo tragos com seus homens, não conheço o poder de suas amizades, de suas crenças, ou a história de suas vidas.

Nem mesmo conheço as velocidades da cidade, suas sujeiras, suas podridões, suas avenidas desumanas, sem humanos. Não conheço suas pobrezas, suas maldições, seus casarões velhos e assombrados, seus monumentos destruídos. Não conheço seus heróis mortos, nem seus novos heróis, descrentes de suas lutas.

Não conheço nada da cidade. Não conheço suas fontes, suas águas, seus dias ensolarados. Não conheço suas crianças, suas praças, suas almas, animadas ou não. Realmente não conheço nada da cidade. Não conheço sequer a minha estrangeirice, ou a estrangeirice dos outros perante meu mundo pequeno, abafado e de portas pesadas.

terça-feira, maio 29, 2007

Harakiri

No Correio do Povo de hoje:

Japão: ministro envolvido em escândalo se mata

Tóquio – O Ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, se suicidou ontem depois de ter sido envolvido em escândalo por suposta malversação de fundos públicos. Segundo a agência Kyodo, esta é a primeira vez que um ministro japonês em exercício se suicida desde a Segunda Guerra Mundial, apesar de pelo menos quatro parlamentares nipônicos terem se matado nos últimos anos.”

Enquanto isso, no Brasil...

segunda-feira, maio 28, 2007

Anistia Internacional e Direitos Humanos

A Anistia Internacional publicou seu relatório de 2007 acerca da situação dos Direitos Humanos no mundo e pede para que blogueiros ajudem na sua divulgação com links em suas páginas. Estou fazendo minha parte: acesse o relatório por aqui.

Nele, o Brasil é citado como um país que desrespeita recorrentemente os Direitos Humanos, em particular através de seu grande índice de homicídios cometidos, principalmente, por forças policiais. Acerca do mundo, o relatório aponta a um regresso na questão dos Direitos Humanos em função do que chama de "política do medo", onde a campanha contra o terrorismo tem legitimado ações contra esses direitos em diversas regiões do planeta.

Os funcionários de escritórios da Anistia Internacional de todo o mundo também têm um blog onde comentam acerca dos Direitos Humanos e de seus trabalhos nas regiões em que atuam. Acesse-o pela página da ONG ou por aqui.

Ajude a divulgar a Anistia Internacional.

sexta-feira, maio 25, 2007

Crônica sobre uma simples partida de futebol

Há muita gente que me convida para assistir a jogos de futebol em bares ou em grupo, na casa de alguém. Minha teoria diz que, quem faz isso, não entende de futebol. Ora, como alguém pode assistir a uma partida importante, como a que tivemos na última quarta-feira, num clima de desconcentração? Para mim, jogo do Grêmio é coisa séria. Não me divirto nem um pouco assistindo às partidas, seja em casa, seja no estádio. Fico numa tensão que impressiona quem está ao meu lado, o que denuncia, enfim, aqueles que não entendem o que realmente o futebol significa.

Superstição é o que não me falta. Nos últimos tempos, andava acreditando que ouvir aos jogos do Grêmio pelo rádio lhe dava mais sorte. Na primeira partida das quartas-de-final da Libertadores, no entanto, lá em Montevideo, escutei o jogo pelo rádio e o perdemos por dois a zero. Passei a achar difícil a classificação e, nessa semana, mandei a superstição se catar: cheguei em casa na quarta-feira um pouco antes das 19h e decidi assistir ao jogo num pequeno restaurante aqui no Centro, cujos proprietários eu já conhecia. Fui, claro sozinho.

Cheguei ao restaurante vazio, de luz amarela e mesas de madeira pesada. Depressivo. Logo fui atendido por uma guria muito simpática e bonita, que estranhamente me ofereceu somente cerveja e vinho. Pedi só meia jarra de vinho, para não exagerar. Dez minutos depois, iniciaram-se os preparativos para o jogo, e aos poucos o pequeno restaurante foi se enchendo de gente, garrafas e fumaça de cigarro. Nesse meio tempo, descobriu-se um senhor uruguaio infiltrado entre os gremistas que se disse torcedor do Peñarol. Que fosse! Fato é que todos ali pareciam se conhecer e o ambiente se tornou, mesmo para mim, sozinho, bastante simpático.

Lembro que o primeiro tempo passou rápido. Queria que o Tricolor fizesse pelo menos um a zero na primeira etapa. Fez dois. Estava perfeito! No intervalo, o tal senhor uruguaio decidiu ir embora, sendo impedido simpaticamente pelos demais torcedores. Ouviam-se somente os “o senhor fiquei aí, ninguém se mexa até o fim do jogo”. Afinal, para outros, assistir aos jogos em bares é que é a superstição.

Para o segundo tempo, pedi outra meia jarra de vinho. Achava que valeria a pena. A função do vinho, porém, foi mais me tranqüilizar que qualquer outra coisa, pois o bendito terceiro gol não saiu. Fiquei durante uma determinada altura da partida um tanto distraído a ponto de, por sorte, perder o lance em que a bola estourou no nosso travessão – somente então voltando a mim devido ao silêncio que se fez no restaurante.

Anunciaram-se os pênaltis. Um dos sujeitos que haviam impedido o uruguaio de sair do bar cobriu a televisão com uma toca do Grêmio, sobre a qual posicionou uma imagem da Nossa Senhora Aparecida. Talvez pelo efeito do vinho, os pênaltis passaram para mim tão rápido quanto o primeiro tempo, e não lembro de ter temido pela derrota. O fato dos pênaltis errados pelos jogadores do Defensor terem sido os primeiros talvez tenha ajudado nisso.

Comemoramos muito! A imagem de Nossa Senhora foi beijada por alguns torcedores, enquanto outro recomendava que todos, no dia seguinte, fossem a uma igreja como forma de agradecimento. Paguei o que devia e saí rapidamente do restaurante. A senhora que veio me atender por fim, tão simpática quanto à guria bonita do começo, fez alguns rápidos e humorados comentários sobre o jogo, me convidando a assistir lá outras partidas, o que certamente farei.

Ontem, daí, visitei a Catedral Metropolitana.

Algumas palavras de Saramago

Entrevista com José Saramago, único escritor em língua portuguesa a já ganhar o Prêmio Nobel, realizada pelo Jornal da Globo. Assista-a por aqui.

sexta-feira, maio 18, 2007

Bumper Ball

Se há de teres um vício, que seja o jogo - além da cafeína, é claro. De preferência, os dois.

Conheça o Bumper Ball, joguinho que virou febre entre os bolsitas da Faculdade de Economia e que tem provocado mais discussões e brigas que as metas de inflação do governo. Jogue-o aqui.

quinta-feira, maio 17, 2007

O Zunido

Era um zunido fraco, baixo, mas constante. Ficava o tempo inteiro somente na sua mente. Era um zunido psicológico, não físico. Somente ele o escutava, ninguém mais. Havia perguntado isso a outras pessoas, à sua mãe principalmente. Ela respondia que não escutava nada, mas que talvez só ela não conseguisse, pois estaria ficando surda devido à idade. Ficava a dúvida, então, se o seu zunido é que era metafísico, ou a surdez de sua mãe.

No fundo, sabia que era o zunido. A sua mãe não era a única questionada sobre isso, afinal. O zunido não mudava de volume, de tom, de forma, de nada, independentemente de onde estivesse ou do que fizesse. Era o mesmo zunido, sempre. Quando caminhava na rua, às vezes se distraía e parecia que o zunido não estava mais lá. Mas bastava perceber isso para voltar a ouvi-lo. Exatamente o mesmo zunido.

O zunido fazia as coisas lhe parecerem diferentes, mas ele não sabia bem do quê. O zunido afetava outros de seus sentidos. Além de ter dificuldade em compreender as pessoas, o zunido fazia o mundo parecer mais rápido, mais apressado. O zunido o estressava, não lhe dava sossego. Não conseguia fazer nada durante seus dias cansativos e noites insones: não podia ler, não podia ouvir música, não podia conversar, não podia ver televisão, não podia fazer nada. Suas relações com as outras pessoas eram moldadas pelo zunido que ouvia. Tudo na sua vida, aliás, parecia ser assim.

Raras vezes se queixava disso, e, quando o fazia, os outros lhe perguntavam desde quando ouvia o zunido. Ele não sabia responder. Não lembrava do momento em que isso havia começado, nem desde quando passou a perceber o zunido. Algumas vezes acreditava que sempre havia sido assim, outras vezes acreditava que não. Não lembrava se havia sido algum dia mais feliz, nem conseguia pensar se o zunido era causa ou conseqüência de algo que lhe ocorrera. Nada. Sua existência se resumia ao zunido.

Um dia, não suportando mais essa situação, num desespero que o zunido lhe impôs - como em tantas outras vezes - saiu de casa. Passou a caminhar vagarosamente pelas redondezas, sem pensar em nada fixo, simplesmente em devaneios tumultuados. Chegou ao porto vazio da cidade, passando a olhar o balançar da água, os poucos montes de terra que sobre ela estavam, o horizonte, o que pôde. Observou também alguns pássaros, a calmaria das coisas, as poucas pessoas.

E então, passou a caminhar pela costa. Primeiro devagar, depois mais rápido. E mais, e mais. E começou a correr, o mais veloz que conseguia. E mais, e mais. E o vento batia nas suas orelhas, fazendo barulho. Ele, agora, ouvia o barulho do vento, e não mais o zunido. Essa sensação lhe pareceu maravilhosa, e ele começou a correr mais e mais rápido. E ainda mais. E o barulho do vento nas suas orelhas lhe dava um prazer nunca sentido antes. E ele passou a reparar as coisas a seu redor, e viu a vida mais calma, mais normal, mais simples. E passou a entender o que as pessoas falavam. E passou a ser igual, como sempre quisera, e a ouvir como todos ouviam. E isso lhe fez correr ainda mais rápido, e mais, e mais... Até escutar, enfim, somente o silêncio.

Do vento.

quarta-feira, maio 16, 2007

O "novo jeito" de fazer política ambiental

A questão das empresas de celulose no RS, por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior. Leia a matéria aqui.