terça-feira, fevereiro 13, 2007

Algumas lições de Kafka

Se da mente do escritor tcheco Franz Kafka (1883 –1924) tivesse surgido, além de personagens, um país, este seria o Brasil. Kafka, considerado, ao lado de Proust, um dos maiores escritores do século XX, é dito o autor do absurdo. Ora, o Brasil é o país do absurdo.

Terminei de ler no fim de semana passado uma de suas obras mais conhecidas chamada O Processo. Você, leitor, já a deve conhecer: nela, Kafka relata a história de homem de cerca de 30 anos que, num dia, vê sua vida rotineira de funcionário de um banco ser conturbada por um processo judicial que sofre, sem saber a razão. Isso é característico de Kafka: pessoas normais, vidas normais, que, de repente, são transformadas radicalmente por um acontecimento, pois, absurdo.

Nem a mente de Kafka, no entanto, seria capaz de criar algo como o Brasil. Em suas obras, o absurdo é entendido como tal, pelo menos. No Brasil, o absurdo é a regra, a ponto de deixar de ser absurdo. Assim, no Brasil, nada mais é absurdo.

Gostaria de saber se O Processo é lido nas faculdades de Direito do nosso país. Na minha opinião, Kafka poderia ser ministro do STF e ganhar seus cerca R$ 25 mil, pois li poucos relatos tão bons acerca do Judiciário brasileiro quanto o dele, nessa sua obra. Kafka, aliás, era formado em Direito, e certamente utilizou sua formação na realização de seu trabalho como escritor, talvez mais particularmente n’O Processo, embora se saiba que sua intenção era muito mais literária que acadêmica. Ou seja, o Judiciário brasileiro parece vir de uma obra de ficção.

Isso se explica.

Primeiro, Kafka sinaliza à ausência de razões do processo que sofre o personagem de seu livro. Em nenhum momento da obra, o personagem, ou o leitor, conhece a causa do processo que se tramita, fazendo com que ambos deixem de dar importância a isso a partir de um determinado ponto da história. As causas do processo, logo, deixam de ser pertinentes, passando a ter este um fim em si mesmo. Isso se enfatiza quando o personagem percebe a ausência da perspectiva de um final ao seu processo, quando sua essência passa a ser unicamente seu desenrolar, e não mais um julgamento ou um veredicto.

Depois, e de forma bem mais clara, é relatado a forma como os funcionários da Justiça agem e as relações entre eles. A maioria dos casos, fica sabendo o personagem, são resolvidos pelos contatos que os advogados responsáveis têm com os juizes, mais do que pela forma da verdade e da lei. A mesma descrição com sensibilidade se observa na relação entre os advogados e seus clientes, que tem seu auge na cena presenciada pelo personagem quando seu advogado atende ao comerciante, outro de seus clientes. Ali, o comerciante é humilhado de forma consentida, se apresentando o advogado como um ser superior a quem o primeiro deve agradecer pela bondade e prestação.

Há quem possa dizer que O Processo somente tangencia a realidade. Respondo que não, pois Kafka descreve os acontecimentos com tal sutileza que faz com que a fronteira com o absurdo seja ultrapassada discretamente, nos deixando perceber isso somente quando já estamos envolvidos nele. No Brasil, ocorre algo parecido. A diferença é que não podemos fechar a realidade, como se fecha um livro, para refletir. Os personagens do livro também não faziam isso, obviamente, pois, para eles, o livro era a realidade, nos fazendo entrar agora numa questão de metafísica.

Mas as semelhanças entre a vida e a arte podem ser mais específicas. Por exemplo, a transformação do processo num fim em si mesmo pode ser uma forma irônica, embora não engraçada, de expressar acerca da utilidade da Justiça. Os entendidos da lei são os legisladores que, caso tornem a lei entendível, ou prática, perdem sua utilidade. É o cachorro correndo atrás do rabo. O veredicto, portanto, é um fim indesejável com gosto de nostalgia.

A descrição do relacionamento dos membros da Justiça, porém, foi a maior contribuição de Kafka com essa obra a nós, conservadores subnutridos. O que n’O Processo não há denominação, embora o fato seja mais claro lá que aqui, do lado de fora, é o nosso tão conhecido corporativismo do Judiciário. Lutam, juntos, por salários e obras, defendem os seus e condenam os nossos. Nós, coitados, fazemos todos o papel do comerciante - poderia dizer do personagem principal, mas este ainda achava estranho tudo aquilo. Ou seja, para personagem principal definitivamente não servimos.

Você, leitor, então pode se perguntar o que significa o final do livro, quando o personagem sofre a execução de sua pena procurando manter sua vergonha, sua moral. Aquele personagem, leitor, representa todos nós, que olhamos o mundo de forma arrogante como se dele não fizéssemos parte, crendo ingenuamente na sua inquestionabilidade, apunhalados e mortos pela ordem.

Leia Kafka.

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